Como um gigante caiu: a crise da Itália e o pesadelo de ficar fora da Copa



Poucas seletivas carregam tanto peso no futebol mundial quanto na Itália. Quatro títulos mundiais, gerações lendárias, defesas históricas e uma camisa que durante décadas foi sinônimo de respeito e medo. Mas, nos últimos anos, a imagem da Azzurra deixou de ser de um gigante imponente para se tornar de uma potência perdida, presa entre o passado glorioso e um presente difícil de explicar.


A possibilidade de a Itália voltar a falhar uma Copa do Mundo é mais do que um simples fracasso desportivo. É um símbolo de como até os maiores pode cair quando erros se acumulam durante muito tempo.


De campeã da Europa à seleção sem rumo


O contraste é brutal. Em 2021, a Itália conquistou a Eurocopa, derrotando a Inglaterra em Wembley e dando a impressão de que estava de volta ao topo. A equipe de Roberto Mancini jogava bem, pressionava, tinha identidade e parecia finalmente ter encontrado uma nova geração capaz de carregar o peso da camisa.


Mas aquele título acabou por esconder problemas profundos.


A base da equipe continuava dependente de jogadores experientes. Muitos talentos jovens não se afirmavam ao mais alto nível. A Série A, durante anos, deixou de formar a mesma quantidade de craques italianos que formava no passado. Os clubes passaram a apostar cada vez mais em jogadores estrangeiros, enquanto a seleção tinha cada vez menos opções.


O resultado foi uma equipe que parecia forte por fora, mas que por dentro já estava a rachar.


O trauma de 2018 nunca passou


Para qualquer outro país, falha uma Copa seria um desastre. Para a Itália, foi uma ferida histórica.


A eliminação para a Suécia nas eliminatórias do Mundial de 2018 foi um choque tremendo. Pela primeira vez em 60 anos, os italianos ficaram fora de uma Copa do Mundo.


Na altura, muitos pensaram que aquele seria o ponto mais baixo e que a chegada viria rapidamente. Só que ela nunca aconteceu de verdade.


A Itália fracassou no Mundial de 2022, desta vez depois de uma derrota impeensável diante da Macedônia do Norte. A imagem dos jogadores italianos em lágrimas após o apito final correu o mundo. Não era apenas uma eliminação. Foi a confirmação de que havia algo muito errado.


O que aconteceu com o futebol italiano?


  • A crise da seleção não surgiu do nada. Ela é consequência de vários problemas acumulados:
  • Falta de renovação nas categorias de base;
  • Poucos jovens italianos a terem espaço nos grandes clubes;
  • Excesso de dependência de veteranos;
  • Mudanças constantes de treinadores e ideias;
  • Uma Série A menos competitiva do que nas últimas décadas.



Enquanto Espanha, França, Inglaterra e Alemanha investiram fortemente demasiado na formação, a Itália demorou a modernizar-se. Os outros evoluíram. A Itália ficou parada.


Durante muitos anos, o futebol italiano viveu a memória dos tempos de nosso tempo: das equipes de 1982, 2006, dos nomes como Paolo Maldini, Francesco Totti, Alessandro Del Piero, Gianluigi Buffon e Fabio Cannavaro. Mas nenhuma seleção consegue sobreviver apenas de nostalgia.


Hoje, a Itália continua a ter bons jogadores, mas já não tem aquela geração assustadora que entrou em campo e parecia destinada a ganhar.


Um gigante abatido


Ver a Itália em risco de não jogar outra Copa é como ver um velho império a ruir.


A camisa azul continua pesada. O escudo continua histórico. O hino ainda arrepia. Mas dentro de campo, o medo de que a Itália causasse desaparecimento.


Antes, enfrentar a Itália teve de enfrentar uma seleção fria, organizada e quase impossível de derrota. Agora, muitos adversários entram em campo acreditando que podem vencê-la. E pior: muitas vezes disponíveis.


O gigante italiano não caiu por causa de uma única derrota. Caiu lentamente, ano após ano, entre decisões erradas, falta de visão e uma geração que nunca conseguiu substituir os heróis do passado.


Ainda há esperança?


Apesar de tudo, seria um erro pensar que a Itália está morta.


Países com tanta história quase nunca desaparecem para sempre. A Alemanha já passou por crises. A Espanha também. A própria Argentina atravessou anos de fracassos antes de voltar ao topo.


A Itália ainda tem talento, tradição e uma liga forte o suficiente para reconstruir. Mas desta vez será preciso fazer mais do que trocar de treinador ou apostar num ou dois jovens.


Será preciso mudar a forma como o futebol italiano pensa no futuro.


Dar espaço aos jovens. Modernizar as academias. Apostar em treinadores com ideias novas. Ter coragem para deixar o passado no passado.


Porque a verdade é simples: nenhum gigante permanece gigante apenas porque um dia foi.


E se a Itália não aprender isso rapidamente, o mundo pode voltar a ver uma Copa do Mundo sem uma das maiores seleções da história.

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